Às vésperas de
mais um fim de ano, sinto-me exausta, sensação que se repete sempre neste
período. Além da exaustão, toma conta de mim um profundo sentimento de
melancolia. Nunca fui dada às comemorações de natal e ano novo, muito menos às
do meu próprio aniversário que, por coincidência, ou por azar, calhou de ser
nesta mesma época.
Outro dia (isso
já faz quase dois anos), marquei uma consulta com o psicólogo. Eu tinha, além
de muitas questões mal resolvidas, uma forte carência e necessidade de conversar
com alguém que fosse possivelmente “isento” de valores e concepções morais
muito definidas. Antes de tomar essa decisão, tentei conversar com as pessoas próximas,
mas descobri que certas questões não podem ser tratadas sob o olhar alheio e que
este pode ser compreensivo, mas também bastante inquisidor.
Nuca havia me
consultado antes com um psicólogo e, para falar bem a verdade, nutria muitos
preconceitos a este respeito. No entanto, aquela consulta, primeira e única,
foi marcante, não pelas respostas (que não descobri), mas pelas questões que se
delinearam claras em minha mente.
Para mim, o fim
de ano sempre foi um período conturbado e traumático. Meus pais se separaram
quando eu era muito pequena, minha mãe me deixou com minha avó e foi se
aventurar pelo mundo. Meu pai, alcoólatra, me usava como bode expiatório para
tentar reatar com a minha mãe, mas a verdade é que ela não estava nem aí. Minha
vó, a quem sou eternamente grata, me criou da maneira que pôde e, ao contrário
do que muitos dizem, ser criada por ela não me facilitou em nada a vida.
Passávamos os finais de ano, eu e minha vó sozinhas em casa. Ela fazia um
banquete só para nós duas. Nossa ceia era sempre celebrada às 9 da noite do dia
24 de dezembro porque, geralmente, ela não aguentava ficar acordada até à
meia-noite. Lembro-me bem que, apesar de ser obrigada a ir dormir cedo, eu nunca
conseguia, ainda mais porque, quando pequena, eu não gostava de dormir, pensava
que as outras crianças estariam fazendo coisas muito mais legais enquanto eu
dormia. Então, fosse qualquer dia do ano, eu não conseguia dormir facilmente,
ficava rolando de um lado ao outro da cama criando fantasias.
No fim de ano
isso se agravava, mas meus pensamentos eram tristes. Tudo me desolava. Assistia
novelas todo dia com a minha vó e, na minha cabeça, todas as crianças do mundo passavam
o fim de ano com uma família grande e com muitos presentes, menos eu. Para
completar o cenário, minha vó, também triste nesta época, não se cansava de
dizer como meus pais eram ruins já que mal se lembravam de mim e me abandonavam
até mesmo nessa data do ano. Eu, pequena, sentia-me rejeitada, isolada e
excluída daquela felicidade natalina que a TV cansava de apresentar. Toda noite
de natal, eu chorava baixinho e me perguntava por qual motivo não tinha uma
vida normal como todas as outras crianças. E foi desta forma que se
transcorreram todos os finais de ano que vivi na casa da minha vó.
Assim que pude,
fugi daquela vida, mas a verdade é que tais momentos marcaram todas as minhas
relações familiares, de amor e de amizade. Sempre fui solitária. Quando morava
com minha vó, todas as noites eu pensava em qual seria o meu “destino” e tinha
certeza que não seria ali. Nunca aceitei as frases deterministas que as pessoas
insistiam em colocar na minha cabeça quando lhes contava meus planos para o
futuro. Sonhava noites a fio com ele, com as pessoas que eu ainda conheceria,
com a minha nova vida, com o renascer de um outro eu.
Enfim, o tal futuro
chegou e pra ser sincera, me orgulho de ter superado, vencido (seja lá qual for
o nome mais apropriado para este processo) aquela vida. Sinto-me imensamente
feliz por ter “chegado onde cheguei”, para usar uma expressão muito clichê. Entretanto,
continuei solitária. Conheci muitas pessoas, mas elas não foram “suficientes”.
Eu procurava algo a mais, algo ou alguém que dotasse minha nova vida de
sentido. Por vezes acreditava ter encontrado as pessoas com quem iria manter
laços de amizade e de amor para o resto da vida, mas após algum tempo de
convivência profunda, descobria que o que eu desejava não estava no plano de
vida das pessoas das quais o meu plano de vida dependia. Isso me causou frustrações
enormes e o maior problema é que outras relações nasceram no meio disso. Eu,
que havia sido sempre tão segura, que havia saído de casa tão cedo, que havia
desafiado a sorte, a família, tudo enfim, em busca de uma nova vida, via-me
mais uma vez afundada nas mesmas frustrações e dilemas. Conheci uma pessoa
neste meio do caminho e me apoiei nela o máximo que pude, até sufocá-la. Fiz
dela meu porto seguro, minha âncora, meu apoio mesmo a seu contragosto. No
entanto, ninguém é âncora de ninguém nessa vida e, apesar de saber disso e
achar condenável tal dependência, eu não encontrava outra forma para sair
daquele buraco de tristeza e medo onde havia me enfiado. Foi então, depois de
sucessivas crises, brigas e ataques de pânico, que resolvi me consultar com o
psicólogo.
Ele ouviu tudo
isso que vos digo e ainda mais. O que ele me disse naquela tarde, entretanto, eu já sabia,
mas vindo de sua boca parece ter surtido mais efeito. Disse-me, da maneira mais
calma possível, que eu seria sempre sozinha. Aliás, todos nós o éramos. Temos
apenas a nós mesmos. Outras pessoas podem estar na nossa vida hoje, mas talvez
não mais amanhã e isso por diversos motivos, a morte é um deles. A questão é: nascemos
sós, morreremos sós, não há outra escapatória para a vida. Disse-me que eu
precisava cuidar de mim, precisava me levar para sair, precisava suprir, eu
mesma, a carência de pai e mãe.
Enquanto as
lágrimas caíam, entendi que eram dessas “palavras duras em voz de veludo” que
eu precisava para seguir adiante com a minha vida. Então segui, e, após tanto
tempo enfim, a liberdade e a superação sempre almejadas resolveram bater à
minha porta, mas trouxeram consigo uma questão fundamental: e se o navegante, antes
preso ao cais do porto, resolvesse velejar a esmo sem a sua âncora?